No Rio de Janeiro... Rio, riem, prendem-me, soltam-me, prendo, vou, vais, fico, fujo, tocam-me, toco, és, Sou, Amo-me, amam-me, danço, Sou, grito, escutam-me, escuto, beijam-me, beijo, canto, Sou, caio, levanto--me, celebro, Sou, caminhamos, vamos, paramos, olhamos, sentimos, somos, estou, fico, és, estás, ficas, amamo-nos, Amo-me, amo-te, amas-me, fujo, vais, perdemo-nos, voltas, vens, achas-me, olho-te, olhas-me, és, beijo-te, beijas-me, beijamo-nos, amamo-nos, somos, Sou, amo-te, Amo-me, perco-me, perdes-me, foges, vou, volto, amo-te, Sou, sonho-me, sonho-te, Amo-me, amo-te, amas-me, prendes-me, soltas-me, danço, grito, canto, Sou...

terça-feira, 27 de abril de 2010

Qualquer coisa assim

Falar de amor sem tê-lo, e não sendo fiel à posse, faz com que o que quer que não se tenha se desvaneça ainda mais sob a imagem não conseguida do ideal.
Por vezes dou comigo num novo papel, onde me detenho bem mais, me protejo, como se temesse por mim, ou pura e simplesmente começasse a cuidar de mim.

sábado, 17 de abril de 2010

Sem-abrigo

Chego hoje ao contorno do precipício, que me deita os olhos ao chão... Quando antes me prendia alto, como se inatingível fosse devolver-me à terra... Não percebo onde deixei a fé de alquimista que nada via se não a metamorfose impermanente, louca e apaixonante que me leva a ligar a tudo e tudo ser, sem nunca ser se não o que confesso ao silêncio, e que poucas vezes deixei escutar comigo. Sei-me ou sinto-me, ou os dois, na bipolaridade vadia, que vagueia por entre laivos dourados que afagam em segredo o céu da boca e me levantam mais o canto dos lábios, mas daquela forma (ligeira, livre, que não se desgasta num sorriso rasgado, mas naquele quase nada), um quase nada que só os que me atentam vêem... E aqueloutro lado, mais escuro, mas sem o qual não via neste a leveza esvoaçante de purpurinas... Esse lado que não se torna breu, que mais espicaça a ânsia mordaz que me ataca as paredes do estômago, e me acorda por vezes descrente, como se o meu destino fosse desacreditar... E vejo afogar-se em mim uma doçura ingénua, quase pueril que me esquenta tantas vezes e me carrega no maior dos saltos, o que me leva a um mundo só meu, onde acredito sem cinismo em histórias de príncipes e princesas, onde não ironizo o amor porque o solto de cada vez que abro a boca e sempre que me calo... Aí, onde os arrepios no estômago são porque se vê sem olhos quem (se) ama... Tenho saudades de ter os olhos na boca, em cada poro, sentir a cada toque uma viagem a uma memória que não existe, e por isso é perene. Sentir em cada palavra ouvida um eco que se descobre meu, em cada silêncio a presença que me acalma e me rouba aos pensamentos e me faz ser tudo assim, na ausência, sem som, sem voz, com cheiro, e sentir-me apenas ali, exactamente ali, num conforto que só acolhe os que amam, presente.
Ai!!! Saudades desse meu lado lamechas que se derrete a ouvir músicas ao lado de, a pensar em, que me faz sentir que jamais alguém melhor do que estes dois, nós os dois, tinha sido feito para amar, para dar matéria a poemas. Saudades dos meus sonhos cor de rosa, da minha fé inabalável, que virou sem-abrigo, saiu-me da alma, e deixou uma outra, inquilina, boa vizinha, mas que em nada se assemelha à original. Faz piadas e até aquece algumas graças, mas nunca se estraga ou entrega. É daquelas que analisa, que nunca cai, mas também não salta e deixa-me aqui presa neste mundinho que nada tem de meu. E no fim de tudo (e pelo meio), também dói, porque se sabe mera inquilina, ali encostada de favor... E não sei se resiste à estação quente, que aquece nos passos que não damos, mas que nos levam... E nos trazem, sempre aqui... Exactamente aqui, onde se abrigam os amantes. Onde se ensaia o amor para nunca levar a cena, pelo puro deleite da experimentação, que intenta de cada vez que subverte o não sentido que se sabe e toca, e sente, ali, presente, amado.

quarta-feira, 24 de março de 2010

P.S.:

As tuas fotografias, recortes da memória, álbum de colagens da alma. Quando tudo se apaga, basta olhar-te no papel, fitar-te como que fingindo desconhecer-te... Mais do que de ti lembro-me de sonhos... De outra vida... Para onde vou... Onde estou. Mais do que de ti, lembro-me de quem podia ser ali e mais além. E vivi bem além de nós, vivi verdades inventadas, exageradas, contornos de luz que ainda hoje me conhecem sombras e por segundos me gelam o espírito. Mais do que a ti, volto aos sonhos que não sonho mais.




Sussurro

Disseram-me hoje ao ouvido:
Não acredito em segredos
Disseram-me, sussurrando
Aquele dia, o quando
Disseram-me ao ouvido, que mesmo gritando
Não desvendo, e às vezes, sussurrando
Ponho tanto ou quero mais,
Intento nos medos que não visam glória
(Gloriosos vendavais)
Porque confesso, baixinho, àquele ouvidinho
Amor grande sem memória
Que não se recria, existe, que não só tenta,
Persiste... No regresso, no sussurro
Alegre murro de infinita virtude
Que agita, sacode, que faz e pode
Que se deixa ser ao colo, tolo
Que se promove, mas acolhe
E é colhido pelos braços
De aberto ouvidinho, que nos aperta
Atrai, alma esperta, amíude,
Ouvidos de olhos abertos
Espertos a brilhar
Que nada fazem, são...
E aí nos rendemos à evidência
Da escuta, ou da outra mão
(E não mais gritamos, porque tudo é perto
E mesmo sem errados, tudo é certo)

terça-feira, 23 de março de 2010

Regresso

Sinto falta de te sentir a falta, ânsia de te envolver em saudade, de te empurrar e comprimir no meu vazio, de tal forma que até este me pareça leve, menos lúcido, preenchido por laços de nada e rasgos de fé.
Faço tudo para te entregar ao esquecimento, como quem devolve umas botas que lhe cansaram os pés... Mas vejo que é mais fácil esquecer-me de mim, e mesmo quando não te penso, vejo que vais ser sempre miragem, daquelas cuja matéria é a mesma do sonho. Daqueles que ao acordar, parecem ter sido tão reais, que deixamos de destrinçar qual o verdadeiro real, e se é que ele existe. Isto tudo para dizer que não te gosto, ou talvez nem mesmo exista, pois não sei qual é mais real, ou se em ambos te sonho. Não te sei vivo em mim, mas sei que nunca te tenho morto.
Assim és para mim, como umas botas emprestadas, que me aqueceram os pés, me abrigaram o passo, e me fizeram correr mundo... O meu. Assim és para mim, inspiraste-me a fugir, e a voltar. Primeiro fugi de ti, mas mais tarde percebi que era de mim de quem fugia. Primeiro voltei para ti, e ainda hoje para mim volto.

terça-feira, 16 de março de 2010

Amantes

Eles vivem um amor amante, amado
Um amor que se entrega,
Sem medo da espera
De sonhos confessos
De partidas que se dão a regressos
Um amor que se diz alto, mas que se vive calado
Um amor que se faz de asfalto
Entrelaçado nas mãos que o percorrem
Que se tem em tudo o que pode ser
Porque é, espelhado
Que segreda palavras quentes
Que pelas paredes escorrem
Que tenta as noites,
Que dois corpos acolhem
Mas que espera o amanhecer
E se olha de olhos semicerrados
Desertos, despidos, rendidos
E mesmo que um dia morra, vive..
Amando, amante, amado, emprestado,
Dado, que se dá e rebola
Que se incendeia e evola

sábado, 16 de janeiro de 2010

Incompleto...

A escrita regular deu lugar à ausência, talvez porque não tenho conseguido distanciar-me o suficiente do sujeito que vos escreve. Talvez porque me tenha entregue ao tédio de mim mesma, e pouco ou nada em mim me faça a rir. Talvez porque me tenho focado na história viva e não na vida da história que quero contar. Talvez porque me custe terminar o que aqui contava, talvez porque me encontre na história a outro tempo, ímpar em espaço, singular na voz, e parcial em mim, ou eu parcial nela, e não saiba ainda se aqui tem lugar. Talvez deva escrever sobre estes tantos talvez que me assolam, e que me lembram que talvez nada disto seja real e precise apenas de realidades que se sobreponham a estes tantos supostos mencionados. Talvez nada disto exista, nem mesmo eu, e seja eu mesma, fruto de um talvez que percorre a cabeça de alguém, que se agarrou aos dedos e discorre por entre caracteres virtuais de uma qualquer alma solitária, acolhida pela insónia às 3 da manhã.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Perdi-me...

Num halo de vento pousa-me o ar
Mas nunca se deita, deixa ficar
E dança inconstante
Para dentro do meu peito
E nesse instante que me sei viva, quero-te!
Para dar beijos que se estendem...
E nesse embalo deixo o grito
Nesse mesmo instante me calo, concito
E aquele halo de vento que me rascunha a alma
Traz teu cheiro, e ali me perdi
Não me tento, sou!
Da forma mais vazia
Aquela que principia, cria
E cria abandonada fico, vou
Sinto um golpe seco, frio
E de pele amachucada no arrepio
Não mais te sei perto
Talvez tenhas sido reflexo
De esperto sono
Deserto de mim como protesto de alma
Ou invento da saudade
Perdi... (-me)!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Dias assim...

Dias em que me entorpecem os sentidos, onde deixo o cheiro da vitória para trás e me agarra apenas a vontade do instante ausente, absorta que estou no meu nada e distante de tudo o que quero ser, nesse lugar tão meu, descanso por vezes, e aí, posso ser coisa nenhuma. Parecem ser dias inúteis, mas resgatam-me, preciso deles como dos mais felizes, e não sei em quais há mais verdade, ou nos quais ela se perde tão completamente para que a saiba.
Hoje nem o entardecer, nem o amornar dos céus me afagou... Não sei o que tenho... É uma amálgama de nostalgia, de dor não chorada, mas que não dói mais, de esperança espremida, comprimida no que deve ser, é um amontoado de seres e não seres que concitam dentro deste invólucro que hoje quase não me recebe, pois estou pouco em mim... Só me apetece dormir, deitar a cabeça e afogar-me na nuvem de algodão e sentir. Hoje não sinto, ou se sinto, minto. Hoje sou trapaceira, mas finjo duma forma que me sei eu mentira, e ela cresce de tal forma em mim, que me reduz a uma apatia ou se faz verdade muda...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Changes

Mudanças... Chegam de repente, ou por vezes avisam, vêm de mansinho até que a elas nos entregamos...
Estar longe fez-me crescer de amores por cada mudança. Mesmo aquelas em que regredi, me magoei, em todas cheguei a um lugar onde a decisão é apenas minha, a partir daí, tudo muda... É irresistivelmente assustador, mas um medo bom, percursor, daqueles que nos entrega a ânsias, mas também a sonhos. Hoje aprendi a gostar tanto das mudanças, da adrenalina de começar de novo, que se tornaram companheiras e me tornaram mais livre, emprestaram-me os desapegos que todas elas, inevitavelmente, chamam.
Chorei, chorei e chorei, porque me dou sempre na vida, e vim embora... Para trás ficou uma vida, amigos, companheiros de alma, do riso e do choro, pessoas que me fizeram sentir feliz por existirem, por estar junto, viva, que me viram além, apenas quem sou. Senti uma grande forma de amor, a compreensão, senti a maior das forças, a da união. Senti-me como apenas me sentia com as minhas melhores amigas de anos, as minhas irmãs escolhidas. Em pouco tempo, consegui trocar verdades, partilhar afectos, que me transformaram ainda mais em mim... A evidência do espelho não me abandona mais. E a forma amante e amada com que vivo a vida também não. E acho mesmo que criei alguns anticorpos contra o pessimismo... Ou me entreguei de vez à alegria de viver...
Não sou sempre feliz, mas ser muito mais eu trouxe-me a paz de chegar onde quero, e mais que tudo, de estar bem onde estou...
Triste e nostálgica, abandonei a minha segunda casa, o meu Rio de Janeiro, que me espera sempre, mas tudo o que vivi está em mim, está nos meus olhos que me dizem brilhar mais, está no meu riso que se fez mais alto, e está num amor que transborda e que sempre esteve aqui... Mudou o cenário, mas a história ainda é minha, e como me disse uma amiga do coração, a minha doce e sábia Bárbara, tenho que estar inteira para viver tudo o que quero viver, para reconhecer cada piscar de olhos lá de cima...
Sou grata por todo amor que recebi e recebo, aos meus amigos do coração, de todos os mundos, que têm sempre lugar no meu.
(Adoro esta música, pela voz, pelas palavras, porque na ida foi assim e fico feliz que a volta nada encerra, e em mim sinto como mais uma viagem... Porque tudo muda, e quando as mudanças crescem em nós, inevitavelmente damos um salto que nos distancia por momentos, mas que nos entrega maiores).
CHANGES - Seu Jorge

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Corro

Vou dormir resgatada pelo sonho, uma visão, um afago da vista, que fugiu com seu olhar para lá do véu da alma... Entrevi cores que só eu sei ser minhas, e um misto de água nos olhos, e um friozinho na barriga invadiu-me... Sei-me no caminho que não tem por onde ir, nem a que chegar, e hoje lembraram-me que o propósito é fazer-me viva pelo caminho, pulsar, afogar a cabeça no verde que invade a estrada e descobrir estrelas cadentes, desejos reincidentes. E não sei de onde me sai agora esta força estranha, que me rasga desde as entranhas, mas não vou jamais não ser eu, pois não sei ser de outra forma. E mais do que me amem, deixem-me amá-los, porque hoje me dispo de meu ego carente e vou pelo menos tentar...
Deixei-te em cada pisar de chão. A meu lado, corria a lagoa, numa presença fresca e madura, de quem está lá para ficar. E quanto mais em ti pensava, mais corria, e corria, para que ficasses para trás, para que saísses de mim... E continuava... E de coração na boca sei que o engano, e correndo, por instantes te lembro menos, engano o tempo, ultrapassando o vento. E de música nos ouvidos, calo minha alma. E num brinde entre amigos, celebro a vida, e cantando descubro um coro, e no eco jamais me sei só.
E a cada dia repito ao espelho que não te quero mais, para não duvidar, e para que alguém me oiça. E a cada dia, quero-me mais. Quando quero menos, corro. Quando me acho, sonho, e volto a estar viva.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

8

Caminhei, segui, parei, olhei para trás, deixei, fui atrás, doeu, surgi, sumi de mim, e hoje, no espelho, vejo um 8. Como fazer para deitá-lo, embalá-lo no meu ventre, e fazer dele 8 invertido, infinito? Onde está o meu infinito que no espelho apenas me surge nó, ou sou eu que olho errado, talvez precise de um colo onde descansar a cabeça... Tenho que aprender a pedir ajuda. Dói-me a cabeça, ela tem-me cansado demais... Queria poder desligá-la, estou cansada da razão de ser de mim mesma, queria ser por instantes insana, intuir, cheirar a vida com as mãos. O medo tem-me visitado, e não ameaça ir embora. Esse escravo da mente, que analisa, calcula todos os riscos, não vá o risco levar-me para longe dele e colocar-me em lugar prolífero ao prazer. E ultimamente, tem-me amparado, mas não para que não caia, mas porque teme meu salto...
Faz tempo deixei de querer ser perfeita, mas dói ter que assumir os meus erros. Dói ter que me fazer mulher, pois não os divido com ninguém, são meus. À noite quando me assombram, não consigo dormir, por mais que tenha desistido de ser perfeita e que me goste com arestas, continuo uma perfeccionista e o os "ses" afundam-se na almofada, e velam-me o sono... E eu não sou assim. Mas hoje vi-me assim, atada aos fios soltos de mim mesma, que se fizeram assim labirinto, um 8. Mas sei que este momento é precioso, religioso mesmo. O 8 tem o poder absoluto e absurdo do caos, da confusão, e como tal, do seu contrário surgir. Uma epifania que peço ao espelho, ao Universo. Uma clarividência que busco em mim, fazer do caminho sem saída, a volta...

Saudades de ser pequenina, de dormir um sono pesado, de quem brincou o dia inteiro, e por isso, merece... De só acordar porque me achava descalça no colégio, ou com um sapato de cada cor, ou o pior de todos, imaginava uns bandidos que o cercavam para me sequestrar... Onde estão esses bandidos para me levar agora... Tirem-me daqui... Voltem a ser o meu medo recorrente, voltem a assaltar meu sono... E roubem-me do meu outro medo, do que não vejo, que finjo desprezar, mas que não me deixa dormir. Quero deitar a cabeça no algodão com cheiro de lavado, e saber-me ali. Hoje não estou, por isso não durmo, porque me dei conta do tempo... Saudades de esquecê-lo, de não temê-lo, de não olhar para trás... Por isso não durmo, estou presa no ontem, como posso dormir e acordar amanhã? Feita num 8...

Quero o teu colo, suspender o tempo nele, debruçar meu corpo até que se entregue, demorar, poder demorar, e sentir os teus dedos atravessarem meus piores pensamentos e acalmarem-nos, até me esquecer, e de repente, olhar no espelho, os meus cabelos colados às tuas pernas, e ver um 8 deitado, alienado do tempo... INFINITO.

domingo, 31 de maio de 2009

Entre paredes brancas...

Ela chegou e os dois rodearam-se num abraço que nada tinha de amigo, mas escondia uma amizade gigante. Comeram-se com o fervor de quem faz algo errado, e talvez por isso lhes soube tão bem. Não falaram, apenas sussurraram palavras que pintaram de libido as paredes brancas da sala...

Quando o sentiu dentro dela soube-se viva, e ele soube-se capaz de chegar ao amanhã.

Nada importa, o que é certo deixa de o ser , ali, as leis transformam-se numa harmonia transtornante. Eles entendem-se, mesmo que seja errado, ou apenas porque sabe bem. Os dois podem descansar um no outro, e ali, tudo pode ser.

Com o cheiro dele espalhado na pele, abraçando-lhe a alma, e de cabelo emaranhado, foi embora.
Ela sabe que se querem bem, ele também... O resto apenas existe para os restantes.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Antes do Inverno acabar

Veio-lhe naturalmente à boca o travo amargo de medo, o medo de ser feliz... De ceder a esse instinto natural. Só teve tempo de se esconder atrás da cortina de cabelos, que a tornava ainda mais flamejante.
De soslaio ele olhava-a, e mais não queria do que abraçá-la, suspendê-la por momentos, como se esse tempo não existisse, para que ao abrir os olhos, ele fosse a primeira coisa que veria. Jamais tivera pensamentos românticos assim, daquele jeito, rocambolesco, melodramático. Mas aquela estranha, tinha alguma coisa, de estranhamente delicioso e familiar... E apenas lhe apetecia agarrá-la pelos cabelos e sussurrar-lhe palavras tolas, por entre beijos e o roçagar de peles. Contorná-la com suspiros e tê-la sempre na ponta do lápis que rasga o papel que tem, invariavelmente em branco, em cima da secretária, à espera de ser revelado. O que tinha de poético, sugava-se na força com que lhe aquecia cada poro, e com que lhe atiçava a mais entranhada das libidos. Não sabia ser assim. Desejar dessa forma uma mulher. Não sabia se não querer ter. Era-lhe estranho aquele sentimento, que era livre, mas que de tão grande, se lhe colava à alma e se contorcia em seu corpo.

Falaram brevemente, reconheceram-se, não morassem quase a paredes meias....
Mas demoraram tanto a descobrir-se... Ou talvez precisassem de mais tempo.
Como nunca se tinham visto é que ele não entendia. Ela também não. Mas ali estavam frente a frente, e sem saberem de onde, gritava aos dois uma vontade de trincar sonhos a dois e de passar noites entrelaçados. Se cedessem às vontades, ter-se-iam naquele momento, mas com aqueles dois, possuir não se figurava, e os dois voaram para longe um do outro. Cada um com um calor novo no corpo, que só era acalmado pelo senso da razão, quase sempre comum, e despido da graça da surpresa.

E o tempo seguiu seu rumo, o Outono entrou sem perguntar se podia arrancar as folhas de cada árvore que gentilmente despia...

Também ele a despiu sem pedir. E quando finalmente se beijaram, já lhe conheciam a coreografia, ainda que nunca antes ensaiada. Apenas antecedeu um olhar fulminante, e olharam-se de tal forma, que ali mesmo se deram, distraíram as mentes, tudo o que dentro delas dizia que não podia ser. E ali foi, deixaram o desejo ser, pois não sabiam se não ser um do outro, ainda que por momentos. E nessa noite dormiram bem amados... Acordaram envoltos em cabelos dourados, que gentilmente, uma vez mais, escondiam o medo.

E o Inverno entrou Outono adentro, e de rompante, tomou-o nos braços. Este cedeu.
Os dias tornaram-se menores e mais propensos a arrependimentos, pois neles cabia menos tempo, aquele que apenas existe quando nos falta.
E de ansiedade posta na alma, sentia em si cada gotejar de chuva, cada vento frio que se instalava na cidade. Sentiu-se também ela exposta a correntes frias, pois não sabia mais nada, apenas que tinha de partir antes dele. Antes do Inverno acabar, ir-se-ia embora. Não esperaria pela Primavera, não se deixaria tentar pelo Verão, não merecia que este lhe esquentasse a alma, e lhe fizesse perdoar a si mesma ser cobarde.

Perguntava-se a si mesma, se este medo, mais não era do que o desejo novelesco de que ele para ela corresse, assim que ela lhe faltasse. Não, ela não era assim, e tinha por ele um amor grande, solto dos pensamentos alheios. Não temia que fosse de outra, de outras, pois inevitavelmente, estavam, inexplicavelmente ligados, mas livres de possessivos. E que querer era aquele, não sabia, pois mais não cabia nela, tamanho era o temor de que crescesse. Que a tomasse no seu todo, de tal forma, que mais não soubesse ser, se não assim.
E de alma rasgada saiu, antes que ele chegasse.
No fogão, ainda quente, repousava o prato preferido dele. Pela última vez pôs nele todo o seu amor, pensando em cada salivar que lhe traria, na sensação de ser, por ela, amado. Esperava, que tal como o prato de comida que esfriava, sob a noite fria, também ele cedesse... Pois se a detivesse, só tinha uma opção...
Ser feliz... Ainda não cabia no seu tempo...
E o Verão chegou... Os dias cresceram, mas não se perderam ainda do tempo. Pelo menos não para ela. Não para ele.
E perdidos um do outro, ainda hoje se têm...
Não mais se cruzaram.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Círculos

E as pernas longas, para ela apenas fortes, capaz de a fazer chegar, membros ágeis e diletantes, para os homens, fortes ganchos capazes de os apertar contra a vida, rodavam, giravam, dançavam. Com elas desenhava círculos no chão, circundava o seu mundo, fingindo assim ter um centro. Colocou-as em posição de compasso, uma perna recta, vertical, que a prendia ao chão, e com a outra girava, criava órbitas de si mesma. Não se parecia com uma dança, mas talvez fosse apenas isso. Os círculos dispersavam-se tal qual bolas de sabão e neste ritual consigo mesma, tomava consciência do seu corpo, do espaço, e fazia por esquecer o tempo e os outros. Não olhava para quem a observava, pois ali estava comprometida consigo mesma, e a estranheza dos seus movimentos, realçava ainda mais a harmonia do seu corpo de fêmea. Era impossível ignorá-la, mas tornara-se também intangível às frases proferidas pelo intelecto. Apenas o silêncio podia alcançá-la, o movimento, o vento, o nada. Ali podia de repente, num piso de areia molhada, criar tudo. Ali estava o seu mundo, e por instantes, fracções de segundo, foi feliz, entregue a um amor tão profundo que a ninguém se destinava, e pertencia a todos. Ouvia vozes, ecos, gritos sufocados na cabeça e, por fim, conseguiu chegar a um vazio doce, que apenas lhe cantava a brisa e trazia cheiros fortes de maresia. Esqueceu o pessimismo, despiu os medos, e dançou, dançou, não poupou o corpo naquela entrega urgente que não cabia mais em si. Sem dizer uma palavra, libertou-se de todas as que tinha contido em nome de alguém, em nome de qualquer coisa que desconhecia. Vieram-lhe à mente as filosofias, a alegoria de Platão, e viu seu mundo na caverna, e dançou e dançou, e quanto mais se movia, com ajuda do vento, mais a luz se acendia, passeou pelos racionalismos, pelos imperativos dela e dos outros e viu que nela imperava, a criação, a vida, a compreensão, e que a falta delas a sufocava, a levava à descrença, e por fim, à apatia. A sensação de quão seu mundo lhe fugia abatia-a, não mais sabia se devia segurá-lo, ou deixá-lo ir. Encontrou conforto no embater das vagas, no embalar do mar, ali surgindo, seu espelho. Ainda que sem centro continuava a ter duas pernas para desenhar novos mundos, repetia, quando não mais suportava o silêncio, quando este era atropelado por pensamentos, quando estes lhe tiravam a paz. E continuou, riscou a areia fazendo um mapa de sonhos, ininteligível a não ser para ela. Sabia o que cada marca no chão era, as de raiva, as de medo, as de sonho, de alegria, cada uma picotando o chão e se agarrando à vida, ao presente. Ali viu-se real, desvendada pelo chão. E de areia húmida colada aos pés foi para casa.
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domingo, 29 de março de 2009

My girls

Dedico estas palavras às mulheres da minha vida, as minhas grandes amigas, irmãs. São as melhores amigas do mundo. E quando tudo acalma e posso sentir o tempo e o espaço, sinto-vos, ainda mais, a falta.
Saudades de todas e cada uma, saudades de tantos momentos, de podermos sempre, juntas ser crianças. Saudades de ter sempre um abraço sem julgamentos, saudades de o dar. Saudades de todos os risos e gargalhadas épicas que arrancámos à vida. Saudades de viver, estar junto. Saudades de um amor inigualável, fraterno, incondicional, que nos liga para lá do sangue, selou-nos as almas.


Várias vezes senti completude, outras tantas me aproximei. E continuo a tentar, mas o que é estranho, talvez até mágico, é que chegamos lá, mas tão de repente o fazemos, como voltamos à casa de partida, aquela, precursora que nos faz chegar lá, tentar ser sempre mais. Por vezes, tantas, esse mesmo é o motivo de desânimo, de melancolia, cobarde demais para se fazer raiva, revoltar, e mudar o mundo no impulso. Mas ao mesmo tempo, aí reside o mistério, o que nos faz não saber o amanhã, a capacidade que temos de perder o tudo e de nos fazer do nada. E tantas vezes dói, outras nem dói mais, mas é isso que torna a vida desafiante, contundente, estimulante. E a cada estimulo, segurar os nossos pequenos todos, pois vão segurar-nos tantas, tantas vezes nos grandes nadas, travessias directas que nos levam ao centro de nós. E nessa montanha russa não esquecer quem somos, mas mais que tudo, lembrar sempre quem queremos ser. A cada novo nada, lembrar o que nos completa. E são essas as reminiscências que nos mantém vivos. O mistério continua, e o que nos completava às vezes deixa de o fazer, sem culpas distribuídas ou desafectos. E assim por vezes, voltamos a ser infelizes, menos felizes. E assim voltamos a ser felizes, mais alegres a brilhar mais e mais em nós. E este vaivém entrega-nos a barriga a náuseas, ou a sensações que sílabas nenhumas conseguem pronunciar e a arrepios que carregam os ventos dos quatro cantos dentro de nós.
Mas não sei ser eu, inteira, sem os que amo, e sinto saudade, saudade de matar a saudade, de estar mais perto, de ser segurada nos braços, de partilhar as vitórias e as derrotas, de chorar compulsivamente porque aí, nesse lugar tão nosso, posso, e ir do riso ao choro como se fossem teclas do mesmo piano. Juntas podemos tudo. Assim são as minhas melhores amigas. Mulheres que para mim serão sempre meninas. Crescemos juntas e deixamos espaço para crescer, juntas, sempre mais. E mesmo longe, mantemo-nos perto. E esta manutenção exige, demonstrações de afecto, atenção, gestos constantes. Mas por vezes, saudades de pura e simplesmente estarmos juntas, sem fazer nada, apenas estando, pois entre nós podem não existir palavras, que os silêncios entregam-se à cumplicidade. Saudades até de tantos, àquele tempo, dramas, para uma , para algumas, para todas, e sempre saber, que na crise, nos juntamos, falamos mal dele e do mundo, e inevitavelmente, as lágrimas acabam por ceder ao riso. Pois somos profissionais em rir de nós mesmas e se hoje rio de mim é porque o treino foi conjunto, acompanhado. E já dizia o filme, nenhum homem é uma ilha, e eu não me sei sozinha.
Tenho saudades de matar saudades das mulheres da minha vida, cada qual insubstituível, cada qual comodamente instalada no meu coração. E buscando e achando e voltando a perder, o que seja que me faz sentir em mim, viva, estão lá. Sem vocês não seria, jamais,completo. E hoje, ao longe, vejo que as minhas meninas se tornaram nas mais belas mulheres, como poucas o são. Brilhem, vivam incandescentes, acesas por cada sonho e presas apenas ao presente. E quando der menos certo, estamos juntas, sempre.
P.S.: O Amor não tem limites... Vale a pena ver este vídeo:

sábado, 14 de março de 2009

Pecado sublime

Acordei.
Escovei os dentes, deixei-me estar por debaixo do chuveiro e deixei a água fria tomar conta de mim. Escorreu-me por todo o corpo uma sensação nova. Hoje acordara com outros olhos.
No espelho via o brilho que só a luxúria crava no olhar e o desejo na alma. Acordei de vontades acesas, e sem medo de as olhar nos olhos. Por isso demorei-me no espelho. Vi-me tão criança, e talvez poucas vezes me vira tão mulher. Chega de choros e afagos de cabelo (pensei), e em cada poro de pele decidi guardar sonhos, células inteligentes que me gritam ao Universo.
Gosto dele, acho que ele sabe. Mas gosto tanto de tanto gostar, que acabarei por gostar de outro. E para mais, tenho tanto por viver, hoje afogou-me a sensação de esperança, mas não a esperança no amanhã do futuro, a esperança no amanhã do presente. aquele amanhã quase hoje, como pensamos quando crianças, quando mais de dois dias nos parecem sinónimo de eternidade.
E de luxúria no olhar deixada, não por acaso, pelo desejo que se me instalou na alma, e que me sacode o corpo, caminhei pelo dia. E este pecado capital deu-me novo colorido, e como não acredito em pecados, resolvi manter-me pecadora, pois alegrou-me o dia, aqueceu-me o corpo e cozinhou tantos dos meus pensamentos, que crus não me levavam a lado algum.
Não por acaso falei contigo. Tu, voz inteligente, que tanto me lembras, mas que me falas no timbre grave e na tua serenidade de homem cúmplice. A cada palavra lembro-me do corpo quente, da voz grave e certa, das mãos fortes que até hoje me percorrem pensamentos. E prendeste-me assim, pelo intrincado enigma que é tua mente, pela inteligência com que o desvendas caprichosamente quando queres, e aí , só aí, de pequeno se tornou um pecado capital, sublimado por rufos de tambores e drapeados de estrelas. E tudo de uma forma fortemente subtil. Saudade...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Mar adentro

Sentada em frente ao mar observava a tela gigante que perante ela surgia. E naquele instante, sentiu-se mais sozinha, e ao mesmo tempo envolta numa brisa quente, num afago que só a natureza lhe podia dar, e que só a tristeza lhe fazia notar. Parada, defronte dela mesma e do mundo, tendo como abismo a linha do horizonte, teve saudades do nada e de tudo o que não viu. Naquele silêncio feroz, próprio de quem concita a si mesma, culpando por vezes o mundo, encontrou paz e por fim, o nada. Conseguiu esvaziar a mente e apenas sobrepesou o peso da alma. Não é como a vêem, desconfia, e se algo a mede é o quanto ama e se dá. Na displicência com que se deita sobre o mundo existe verdadeiramente.
Ali, naquele fim de tarde, ligou-se a si mesma pela linha que a desligou do mundo.
E pensou: Não me escuto, ou desaprendi minha língua. Confundo-me a mim mesma, certamente o Universo, que não mais deve saber o que quero, qual a demanda. Cheguei a esse ponto crucial, a pergunta não mais pode esperar... E pergunto-me, grito por dentro: O que quero? O que realmente quero?
Cheiro o mar, adoro o cheiro do mar. Alinha-me os sentidos e faz-me perder o senso de mim.
Vou para casa. Quero ir. Amanhã volto. Não posso esquecer, não posso deixar de me responder.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Pós Prilimpimpim

Alma livre, empoeirada

Leva entranhado o pó da estrada

Uma poeira leve, dourada.

E sei-me também eu grão,

Errante, viajante delirante,

A cada delírio são, em cada passo vão, distante.

Colhi pelo caminho os pós prilimpimpim

Aqueles que fazem sempre mais de mim

Os pós mágicos, sementes de ilusão

Que germinam a quem lhes estende a mão

Trago-os sempre no bolso,

Por vezes sacudo-os do dorso,

Quando encolho as asas.

E quando diante do nada,

Lembro-me de minha condição de fada

E o nada vira arremesso

E nesse salto me aqueço

E sigo nova estrada